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Adriana Gava e Leandro Dias
Equilíbrio, incentivos e convergência de informações dentro e fora de quadra. Apesar de compor enredos semelhantes, os personagens mobilizados para as duas sequências e os panos de fundo iniciais guardavam particularidades singulares. Em ação, jovens encantados com a modalidade descoberta nas quadras do colégio. Diferente do futebol ou do futsal, o esporte era praticado predominantemente com as mãos. Os gols saíam quase que a cada ataque. Seria possível diminuir essa margem?
Coincidência ou não lá foram eles para debaixo das traves. A obsessão inicial não era por fazer gols, e sim em como agir para evitá-los. Deste primeiro lance logo partiram para os treinamentos semanais nas categorias de base de clubes de ponta do handebol paulista. Ela na própria capital, ele em São Bernardo do Campo. Desde os primeiros passos, a admiração por grandes nomes da modalidade era potencializada a cada encontro com eles nos ambientes de treinamento e de competições dos clubes que defendiam.
Amizades com companheiros de jornada apareceram e auxiliaram tanto quanto os conselhos de treinadores e as investidas em outras posições das sete possíveis em uma metade da quadra. Cada palavra e todas as novas vivências repercutem ainda hoje, seja para prever determinada trajetória ou movimento de braço, seja para aconselhar das arquibancadas com auxílio de olhares ou outros gestos.
A trajetória aparentemente desconexa da dupla de goleiros começou a insistentemente coincidir. Antes das convocações para as seleções brasileiras nas categorias de base e o primeiro encontro em um hotel em que as seleções brasileiras masculina e feminina juniores ficaram concentradas ao longo de uma importante competição, vieram trocas de clubes.
Adriana teve o primeiro contato com a atual assistente técnica da seleção feminina adulta em Guarulhos. E de lá rumou rumo ao handebol europeu. Na primeira tentativa uma contusão frustrou seus planos. A parada obrigatória apenas adiou sua transferência e confirmou sua obstinação em lutar para consolidar sua carreira na modalidade e chegar a uma olimpíada, quem sabe já em Londres.
Leandro trocou de cidades no ABC paulista depois de passar por outra grande equipe do estado. No IMES dividiu quadra e participações em jogos da Liga e do Campeonato Paulista com antigos ídolos. Pouco tempo antes, ainda pelo juvenil, foi treinado e orientado por um dos grandes goleiros do Brasil.
Além da rotina de treinos, jogos, viagens, da história da carreira, e da identificação das características de jogo dos parceiros, o casal Leandro e Adriana avaliou aos microfones do Portal do Handebol (pouco antes da apresentação de Adriana à última etapa de treinamentos da seleção brasileira feminina para os Jogos de Pequim) o atual panorama da modalidade no Brasil. A dupla adiantou planos para o segundo semestre e ainda listou uma formação internacional de respeito e elevado rendimento para atuar em um hipotético clube gerenciado por eles.
Portal do Handebol: Vamos começar com a Adriana. Como você define o estilo de jogo do Leandro embaixo das traves?
Adriana: Ele é um goleiro que joga muito pensando em trajetória em posicionamento. O estilo dele é bastante completo. Vai bem em bola dos nove, em bola dos seis metros, quando precisa ser explosivo ele é. Quando precisa ser calmo e trabalhar posicional ele consegue também.
P H: Quais são os pontos fortes dele?
A: Arremessos dos nove metros e contra-ataques.
P H: Agora vamos inverter, o Leandro vai definir o estilo de jogo da Adriana.
Leandro: A Adriana usa bastante a envergadura para se sobrepor diante das outras jogadoras. Ela tem recursos, não se garante somente com a envergadura, se sai bem diante de vários tipos de situação, qualquer tipo de arremesso. Sabe manter o emocional bem controlado, busca soluções para alguns problemas que acontecem durante a partida. Ela é uma goleira que raciocina bastante durante o jogo.
P H: Mantendo ainda essa forma invertida. Adriana, você acha que o Leandro vive atualmente o melhor momento da carreira dele?
A: Quanto mais velho ele consegue ficar cada vez melhor, com mais informações. Na minha opinião, o melhor momento dele foi quando ele foi para o Mundial. Ele estava muito bem na parte física e na parte de quadra, mas agora ele está passando por um processo de amadurecimento e tende a ficar cada vez melhor dentro de quadra.
P H: Leandro, a mesma pergunta em relação à Adriana.
L: Ela tem facilidade para colocar em prática as informações que ela capta antes e durante as partidas. Além disso, se supera bastante em quadra e cada vez apresenta um amadurecimento maior, muito por jogar em uma Liga muito forte, uma Liga Européia [Espanhola, pelo Léon Balonmano]. E com isso, ela tem demonstrado resultados muito bons e atuado em alto nível.
P H: Como vocês se conheceram, e o que vocês acham da coincidência de atuarem na mesma posição?
A: A gente se conheceu no Campeonato Sul-Americano. Nós estávamos na seleção brasileira Júnior. Eu na feminina, ele na masculina e por coincidência nossos quartos eram um do lado do outro. E foi ali no hotel que a gente começou a se conhecer, a conversar... e foi assim jogando....
L: ... Por jogarmos na mesma posição, tínhamos bastante assunto em comum. Nós começamos trocando informações de goleiro para goleira e acabamos aprofundando um pouco mais o contato. E resultou em namoro.
P H: Vocês acabaram de falar em troca de informações. Quando um acompanha o jogo do outro, vocês costumam se comunicar ou mesmo passar dicas na base da troca de olhares ou de gestos?
A: Com certeza, quando um vai ao jogo do outro, o que está no gol já sabe onde o outro fica sentado e trocamos essa ajuda sim.
L: Normalmente trocamos informações ao longo das partidas para alguns tipos de situações e costuma surtir efeito. Sem nenhum tipo de pressão, mas a gente acaba trocando contatos que dão resultado produtivo no jogo.
P H: E vocês se sentem mais motivados com o namorado ou a namorada na platéia?
A: Temos mais vontade de mostrar que estamos bem, que passamos por um bom momento. Ainda mais agora que está tão difícil de um ver ao jogo do outro.
L: Com certeza, porque um sabe do outro o quanto a gente busca e o quanto lutamos nos treinos. E a gente quer mostrar. Jogamos por nós mesmos, pelos nossos clubes e pela pessoa que está junto com a gente e conhece a luta que travamos para continuar jogando, atuar em alto nível e se superar nos jogos. E é importante quando um prestigia a partida do outro.
P H: Agora vamos individualizar o bate papo. Começando com a Adriana. Qual é sua expectativa para a fase de treinos da seleção na reta final de preparação para a olimpíada de Pequim. Você é uma das 21 pré-convocadas e os treinos começam em poucos dias?
A: Minha expectativa sobre o meu desempenho ou o da seleção?
P H: Dos dois.
A: Individualmente, eu estou muito feliz por ter sido convocada, em participar do processo olímpico. Isso já é um grande feito para mim. Uma coisa que eu buscava era chegar a esse lugar, à fase de preparação. Eu espero desempenhar um papel muito bom conseguir mostrar para eles [integrantes da Comissão Técnica] o meu trabalho, já que eu estou há um ano sem ir para a seleção. O tanto que eu fiz nesse período e comprovar que eu evoluí, e que quero render ainda mais. E, claro esperar pela convocação seguinte e quem sabe, ir para a outra etapa de treinamentos, e se possível para a olimpíada. Mas o primeiro objetivo é participar bem desta primeira fase de treinamentos e comprovar o quanto eu evolui neste tempo longe.
P H: Essa lembrança se torna um alento a mais para possíveis e futuros ciclos olímpicos, já que duas de suas concorrentes, a Chana e a Darly, tem experiências maiores na seleção adulta e na disputa de Jogos Olímpicos e você pela pouca idade poderia ser peça fundamental para Londres 2012?
A: Com certeza, já é uma olimpíada que eu quero estar. Me projeto nela, e ao mesmo tempo quero aproveitar essa oportunidade às vésperas de Pequim para absorver informações delas, das jogadoras mais “velhas”, porque a gente tem pouco contato, uma joga na Dinamarca e a outra na França. E claro pensar no futuro, se caso não acontecer, saber que eu tenho uma próxima chance. Eu sei que sou nova e pela minha idade vai estar tudo certo para a próxima.
P H: Além da Chana e da Darly, que outras goleiras você usa como espelho, ou como referência?
A: Eu vou falar do exterior, eu acho muito bom o estilo de jogo da goleira da Noruega, a Katrine Haraldsen, e eu gosto de adotar um estilo parecido com o dela. Acho ela muito completa. E da Katalin Palinger da Hungria. As duas são as que eu mais gosto de assistir e me espelhar. Eu também observo muito os goleiros do masculino. Por ser muito mais difícil pelo tamanho dos jogadores e pelo nível de jogo. Um deles o Thierry Omeyer da França e o meu ídolo no goL: o Vlado Sola da Croácia, que já não está mais na seleção, mas eu vi muito jogo dele e eu gostava muito.
P H: Desde o seu começo no handebol você atuou como goleira? Na época havia alguma outra fonte de inspiração?
A: Desde novinha, da época do colégio comecei no gol e me espelhava como sempre no Taffarel, por causa da Copa de 1994.
P H: Teve algum motivo especial, ou desde cedo você teve uma afinidade pelo gol, ou melhor, por evitá-los?
A: Não, não teve afinidade não. O professor me falou: você vai para o gol. E eu aceitei, beleza, e comecei e não larguei mais.
P H: Você já está há quanto tempo na Europa?
A: Seis meses, eu estou lá faz seis meses.
P H: No começo você acabou se machucando quando fazia um teste por uma equipe, se recuperou e agora já está atuando. Conte-nos um pouco deste momento.
A: Antes, no começo do ano passado [2007] eu fui para a Dinamarca fiz um teste em uma equipe da primeira divisão de lá, e no último no dia por fatalidade no último amistoso antes de acertar o contrato, tive a lesão no meu joelho. Acabei voltando para casa, o clube que eu defendia aqui no Brasil faliu. Eu me recuperava, e no meio deste processo veio uma proposta da Espanha e agarrei com unhas e dentes.
P H: E foi seu momento mais difícil na carreira?
A: Com certeza.
P H: E no que você se apoiou para poder se recuperar e voltar a jogar em alto nível?
A: No sonho que tenho de ajudar o Brasil, a seleção brasileira. O sonho de participar da seleção e defender o país.
P H: Depois desta passagem pelo time da Dinamarca, você fechou com o León Balonmano. Foi mais fácil se adaptar na Espanha?
A: Com certeza, pelo menos a língua você compreende, com pouco mais de duas semanas já sabia falar alguma coisa e entendia quase tudo. E se fosse para uma equipe em um país com um idioma completamente diferente, como na Dinamarca eu ia sofrer muito mais para me adaptar.
P H: E o que muda de lá para cá em termos de treinos, em jogos, em divulgação do esporte?
A: Muda tudo. Todas as equipes têm vários patrocinadores, o nível de jogo: têm 14 equipes muito fortes, muito fortes, a Liga é bem mais divulgada. Cada cidade tem emissoras de rádio, de televisão que promovem a equipe local. É tudo, cartazes, panfletos espalhados pela cidade inteira quando você vai jogar. E aqui você vê uma Copa Brasil e ninguém sabe que é sediada em São Bernardo. Poderia haver uma divulgação melhor. Por ser um esporte muito praticado nos colégios, muita gente poderia comparecer, se a divulgação fosse ampliada nesses lugares. Estaria cheio de crianças. Tem que saber atrair mais o público para as partidas de handebol. Está faltando isso.
P H: E como você falou em trazer o público, como é o envolvimento lá? Como o torcedor se comporta, ele é tão fanático quanto o daqui com o futebol, ou ele é mais ainda?
A: Tem lugares em que ele é muito fanático. Tem gente que veste a camisa, pinta e rosto e tudo mais. Em equipes mais tradicionais, que são as melhores equipes, tem muita gente assistindo, crianças para todo o lado. Muito legal mesmo.
P H: E qual sua avaliação do seu desempenho na temporada 2007/2008?
A: Satisfatório, por tudo o que eu passei, eu joguei muitos jogos, fiquei bastante tempo em quadra e foi muito satisfatório para mim. Eu não consegui desempenhar ainda o trabalho que eu pretendo, mais pela parte física que eu preciso recuperar. Quando você opera um joelho ocorre um desequilíbrio entre uma perna e a outra, de músculo, e eu estou me reequilibrando, para nesta temporada conseguir ir melhor.
P H: Você atuou pelo León mesmo ou por alguma outra equipe?
A: Eu fui emprestada para o time de Castro Udiales, no norte da Espanha, fiquei quatro meses ali, joguei todos os jogos desde quando cheguei. E eu fui para León no final da temporada para arrumar as coisas para a próxima temporada que eu jogarei por lá. E o León é uma equipe muito melhor do que essa em que eu estava.
P H: O León conta com outras brasileiras no time.
A: Meu time tinha a Dara [Fabiana Diniz, que se transferiu para o Orsan Elda Prestígio], a Milene[Figueiredo] e a Mayara [Moura, também participou da fase final de preparação para Pequim] e eu. Agora vai outra brasileira comigo e com a Mayara que é a Sheila [Gris] que é do Sul e também vai jogar lá. Isso ajuda muito brasileiras juntas. A colônia brasileira ajuda na adaptação, no jogo, na convivência, tudo fica mais fácil.
P H: Você espera trilhar o mesmo caminho da Sílvia Helena e da Deonise Cavaleiro no Léon. Em uma temporada elas se destacaram e conseguiram ir para um time com ainda mais visibilidade e projeção na Espanha?
A: Eu creio que o Léon é um time bom para estar começando, é um time limitado, a gente sabe das limitações financeiras e dentro de quadra mesmo, mas para o meu objetivo agora está ótimo, está perfeito. Não é necessário mais. Agora mais para frente, daqui um, dois anos, três, com certeza, o objetivo é ir para as melhores equipes do mundo.
P H: Voltando à sua carreira no Brasil. Você foi treinada por alguns grandes nomes, entre eles a Marisa Loffredo. Quais profissionais você destacaria deste período?
A: Eu vou falar da minha primeira técnica que foi a Kátia Carvalho de Souza, que foi com quem eu aprendi a jogar. Porque até então eu apresentava o suficiente para o nível escolar e foi ela quem me colocou em um nível compatível ao exigido pelo handebol profissionalmente. Tive contato com ela nas categorias de base do Sport Clube Corinthians Paulista. Eu joguei cinco anos por lá. Depois fui para o Guarulhos. E de lá destacaria a Marisa que é uma pessoa que faz qualquer grupo virar uma equipe de união.
P H: Tanto no Guarulhos como no Corinthians que momentos da carreira, títulos, você costuma lembrar com maior carinho?
A: No Corinthians, o nosso primeiro título que foi o Campeonato Paulista Cadete, acho que foi em 2005 se não me engano, ou antes 2003, não sei direito. Foi o primeiro título do clube e foi um marco para a gente que estava ali. E na minha carreira também um título na seleção que foi o de melhor goleira em uma Mini Copa que teve na República Tcheca.
P H: Qual o seu envolvimento com o handebol e o que ele significa para você?
A: É o meu trabalho, ocupa grande parte da minha vida. É tão bom quando conseguimos conciliar o trabalho com a nossa paixão. Eu tenho também minha vida pessoal, mas o trabalho conciliado com diversão é muito bom.
P H: Em algum momento, você sofreu com dificuldades financeiras ou outras ameaças que colocaram em risco a continuidade de sua carreira?
A: Eu me recuperei da lesão no joelho porque eu contava com o Bolsa Atleta, e o convênio médico mantido pelos meus pais, porque o clube que eu estava aqui no Brasil faliu. E o clube da Dinamarca que eu tinha ido fazer os testes, eu ainda não havia fechado o contrato, lá é tudo por contrato, não ajudou em nada também. Eu voltei com uma mão na frente e a outra atrás. Fiquei desamparada e tive que correr atrás por mim mesma para voltar a jogar.
P H: O handebol feminino brasileiro vive hoje seu melhor momento?
A: Jamais. Do que eu conheço de handebol, em termos de condições para se jogar aqui, o esporte passa por um dos piores momentos. Porque quando eu comecei a jogar existiam muito mais equipes, tinha o Mauá [Universo], Guarulhos, MESC, até mesmo Santo André, muito mais equipes e uma Liga Nacional muito mais forte. E com a falta de incentivo, o que ocorre é que pouco a pouco a prática está se extinguindo. As equipes estão saindo o dinheiro e os investimentos diminuindo...
... PH: e em termos de resultados da seleção?
A: A seleção eu acredito que vive seu melhor ano. Desde a chegada do Juan Oliver Coronado, deu uma grande mudada na dinâmica da equipe. Cada vez mais a tendência é a gente chegar a degraus mais próximos das medalhas.
P H: Você já teve algum contato com o Juan Oliver?
A: Já, em outras fases de treinamento.
P H: Com essa turbulência interna do handebol brasileiro e a diminuição na quantidade de equipes e no volume de incentivos, a opção de jogar na Europa se torna um dos poucos caminhos possíveis?
A: A Europa hoje é o único caminho para quem quer viver do handebol. Porque o que eu vejo aqui, é muito incentivo para o masculino e pouco incentivo para o feminino. É só olhar por ano quantas equipes temos no Campeonato Paulista feminino e no masculino. Entre as mulheres permanecem duas, três, pouquíssimas. É uma tristeza para mim, porque eu sou super nova. Por mim eu teria ficado mais um pouco por aqui, mas por falta de equipe, por falta de competição não tive como. A própria falta de competição faz com que os salários sejam mais baixos, não tenha estrutura. Quanto mais times com estrutura melhor vai ser para o atleta.
P H: Alguns comentaristas e alguns veículos chegaram a noticiar que em alguns casos, ajudas como o Bolsa Atleta e outros benefícios equiparam os ganhos aqui no Brasil e em algumas equipes da Europa. E que o êxodo só ocorreria pelo maior nível de competitividade nas disputas por lá. É o que ocorre no seu caso?
A: Não, com certeza o salário na Europa no meu caso é melhor. Pela moeda mesmo, você pode até ganhar os mesmos em números, mas ao voltar para cá é duas ou três vezes mais.
P H: Transição agora para o Leandro. Você defendeu a equipe da Hebraica na edição 2008 do Campeonato Paulista. Com uma equipe bem jovem, vocês alcançaram as quartas de final e por detalhes foram eliminados por Taubaté. Você fez boas apresentações, como contra a Metodista. Que balanço você pode fazer deste semestre?
L: Individualmente eu saí satisfeito com o trabalho que eu fiz. Porque eu joguei no ano passado por uma equipe do Rio de Janeiro e fiquei afastado aqui de São Paulo, e isso me fez muita falta. Achei que teria uma defasagem, mas consegui jogar em um nível bom contra as equipes grandes. E no sentido de grupo, é um time com um potencial muito grande, mas que ainda falta experiência na hora de decidir. Mesmo assim, fizemos bons jogos contra as equipes grandes, perdendo de muito pouco, dois ou três gols. E não avançamos para as semifinais por detalhes. Por muito pouco. É um grupo com um enorme potencial e que se mantiver em um espaço de tempo curto vai ter um desempenho bem maior.
P H: Seu técnico, o Álvaro Herdeiro, declarou em algumas entrevistas que você além de ser uma das peças de destaque da equipe é um goleiro de muito futuro. O que você tem a dizer sobre ele, sobre o trabalho desenvolvido por ele, como foi o relacionamento neste período?
L: Ele é uma pessoa que dá oportunidade para os mais novos, o que não acontece muito nas outras equipes de São Paulo e do Brasil de uma forma geral. Por dar esta oportunidade, que é muito valorizada, ele merece elogios e é um dos poucos técnicos a fazer isso. E a Hebraica é um clube que costuma conceder esse tipo de oportunidade, o que faz muita falta em outros clubes grandes em que jogadores jovens que poderiam se destacar da mesma forma, mas não conseguem pela falta desta oportunidade.
P H: Você construiu toda a sua carreira no handebol paulista e se transferiu na temporada passada para a equipe de Campos. Como é a estrutura e o apoio ao handebol no estado do Rio de Janeiro e especificamente no clube em que você atuou?
L: O apoio é quase nulo e o nível é menor que o daqui de São Paulo, bem menor. E eu só fui unicamente por ter a meta de disputar a Liga Nacional, e a única equipe que me deu oportunidade de disputar a Liga Nacional foi essa equipe de Campos. E foi o único motivo de ir para lá, mas com certeza eu não voltaria tão cedo a jogar lá.
P H: De lá você destaca as amizades que foram estabelecidas?
L: O que me ajudou bastante neste período foi o apoio da minha namorada, da minha família, a meta que eu tracei e alguns poucos amigos que eu tive lá.
P H: Você também atuou em São Caetano, teve grandes apresentações no Campeonato Paulista e na Liga Nacional. O que você guarda desta passagem?
L: Eu joguei por cinco anos em São Caetano, desde o juvenil até a categoria adulta. Foi um lugar em que eu vivi todas as situações possíveis, o que foi bom, me passou experiência. Lá pude treinar em alto nível por bastante tempo, desde novo já treinava com a equipe principal, por onde passaram muitos jogadores de altíssimo nível e aprendi muito com isso. Mas chegou o momento em que já não contribuía mais e acabei saindo.
P H: E como foi trabalhar com o Washington Nunes?
L: Foi uma experiência muito boa, eu tive a oportunidade de trabalhar com o Washington tanto no clube como na seleção Júnior e adulta. Não cheguei a ir para os campeonatos, mas aprendi bastante no sentido técnico e por conviver com os atletas de alto nível pude aprender bastante também individualmente.
P H: Você já definiu por qual clube vai atuar no segundo semestre após os Jogos Olímpicos?
L: Não por enquanto nada de concreto ainda. Acabou a participação da Hebraica no Campeonato Paulista, eu estou em um período de férias ainda e tenho perspectivas de ver o que vai acontecer se continuo lá para disputar algum campeonato no segundo semestre ou se vou me transferir para outra equipe.
P H: Além da Hebraica você chegou a receber alguma outra proposta para o segundo semestre?
L: Não, existe a perspectiva de alguma outra equipe, mas nada de concreto ainda.
P H: Nas categorias de base, apesar de ter começado como goleiro, em determinados momentos você se aventurou como ponta. Em que isso te ajudou ou ajuda nos dias atuais, ao ter vivido o outro lado?
L: Eu pude ver as coisas do ângulo de quem atua na linha, e isso ajuda bastante também na questão de referência de posicionamento, de analisar o atleta, o tipo de chute. Isso ajuda bastante.
P H: Você chegou a comentar que desde novo treinava e dividia a quadra com jogadores de alto nível que pouco tempo antes serviam como espelhos para você projetar sua carreira. Como foram esses primeiros contatos?
L: Todas essas pessoas me passaram uma experiência muito boa de convivência em grupo e exemplos de atitudes positivas em quadra. Foram pessoas excepcionais. Independente do temperamento de cada um, sempre me passavam coisas boas. E sem dúvida, isso contribui bastante na minha formação como atleta.
P H: Em que goleiros você se espelha?
L: Nacionalmente eu admiro bastante o trabalho do Alexandre Morelli, o Alê que é goleiro da Metodista. Ele foi uma pessoa que me treinou desde a categoria juvenil, até praticamente o adulto, e que me ajudou muito, contribui demais com a minha formação. É um goleiro que eu admiro bastante em nível nacional, acho justo ele estar no grupo que vai para a Olimpíada. Ele tem um potencial muito grande. E internacionalmente eu admiro bastante o trabalho do Thierry Omeyer, que é o goleiro da seleção da França, por não ter uma estatura muito grande. Ele é goleiro muito inteligente que se posiciona bem, sabe decidir e não depende apenas do porte físico. É bastante inteligente.
P H: Você acha que tem um estilo muito parecido com o do Alê da Metodista por conta da tranqüilidade debaixo das traves que permanece fora dos ginásios também?
L: Então, concentração e tranqüilidade foram itens que o Alê mais insistiu na minha formação e é uma das coisas que mais me ajudam nas partidas decisivas. Por isso que eu digo que ele contribuiu bastante também na minha formação.
P H: Agora uma pergunta para os dois. Nesses momentos de concentração e de viagens em campeonatos em hotéis e alojamentos, vocês viveram episódios engraçados ou inusitados que vocês possam contar? Pode ser juntos ou individualmente?
A: Uma vez, quando eu era júnior teve três campeonatos na República Tcheca que a gente participou pela seleção. E no final do primeiro deles precisamos nos deslocar e viajar de avião. E já no aeroporto ficamos sabendo que a conexão ia demorar cinco horas, e estavam todas ali sem fazer nada. De repente, uma tinha levado um cavaquinho, e começou a tocar. E a gente lá sem fazer nada há quatro horas começou a cantar e a dançar no aeroporto. E por acaso, as pessoas que passavam começaram a jogar moedas, achando que fazíamos aquilo para arrecadar dinheiro. Foi uma ocasião muito engraçada e até hoje quando eu converso com as meninas que estavam lá, a gente dá muita risada por esse fato.
P H: Essa seleção júnior a que você se referiu era a que era formada por Mayara, Duda, você. Esse foi uma das equipes mais fortes, ou que mais tenha se destacado que você atuou?
A: Essa geração tem meninas que já estão hoje na seleção adulta. E o que eu acredito é que essa equipe em que eu estava, e ainda tinha a Duda [Amorim], a Mayara [Moura], a Ana Paula [Rodrigues], todas jogadoras nascidas entre 1985 e 1987, deve ser a próxima a assumir a responsabilidade na seleção. Foi elogiada por muitas pessoas, muitos técnicos e eu acredito muito no potencial e na capacidade de todas daquele grupo. Cinco delas já estão hoje jogando na Europa.
P H: Se vocês fossem dirigentes e pudessem escalar uma equipe dos sonhos, se incluindo se quiserem e sem se importarem com orçamento, nacionalidade ou época quais seriam os escolhidos?
A: Como dirigente meu time teria como central a Anita Gorbicz da Hungria que é muito boa. Nas meias a Elena Polenova da Rússia de dois metros e tanto, na ponta esquerda a Fernanda França da Metodista, eu acho ela muito boa. A ponta direita a Alexandra do Nascimento da nossa seleção. Pivô, uma norueguesa que joguei contra no Mundial. Na outra lateral, a Duda Amorim.
L: Eu colocaria na ponta direita o [Mirza] Dzomba da Croácia, meia direita o Petar Metlicic também da Croácia, central o [Michael] Kraus da Alemanha, meia esquerda colocaria o Karol Bielecki da Polônia, na ponta esquerda o Juan Garcia da Espanha, pivô o Chipkin da Espanha também e o goleiro seria o Thierry Omeyer da França.
P H: Vocês têm ídolos em algum outro esporte?
A: Eu tenho o Rogério Ceni.
L: O Gustavo Kuerten, o Guga, por ter feito uma história muito grande no tênis nacional e por ter lutado tanto contra a lesão dele, ter se recuperado e continuado na ativa.
P H: Microfone aberto e a disposição dos dois para comentarem algo que não tenha perguntado.
A: Eu gostei muito da idéia do Portal do Handebol antes mesmo de começar o site, do interesse de vocês, tomara Deus que tenham pessoas iguais a vocês para divulgar cada vez mais o esporte. E dizer obrigado pelo handebol mesmo, por ter mais pessoas interessadas em divulgar a modalidade.
L: Eu só tenho a agradecer ao Portal do Handebol pelo incentivo e por fazer matérias inteligentes e de qualidade. Eu agradeço, bastante...
A: sem nenhum tipo de preferências por times, equipes ou pessoas...
L: um jornalismo neutro e de qualidade.
P H: Quer deixar algum recado para a torcida?
A: Eu espero que compareçam aos jogos, façam um esforço para superar a falta de informação e de divulgação das datas e lugares e venham assistir. E para que as crianças passem a praticar cada vez mais esportes. Somente assim vamos continuar vivendo no Brasil.
L: Além de falar com a torcida, eu gostaria de ressaltar um ponto que não deixei tão claro aqui. Voltando a questão do técnico Álvaro. Ele é uma pessoa especial por dar oportunidade a todos, ser uma pessoa neutra, muito inteligente e quero deixar claro meu agradecimento para ele, pela oportunidade que ele me deu e para as outras pessoas também. E eu acredito que em breve ele estará integrando alguma categoria das seleções nacionais.
GUILHERME CAMPOS
GUILHERME CAMPOS - 12/11/2008
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